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Com e sem

Luis Fernando Verissimo

Querida Roberta: Você deve estar estranhando meu silêncio e pensando que eu talvez tenha morrido ou, pior, esquecido você.

Não aconteceu nem uma coisa nem outra. Continuo razoavelmente vivo e em vez de esquecê-la, não paro de pensar em você. Só o que faço, desde o nosso jantar, é pensar em você. Sim, o jantar, o fatídico jantar em que finalmente nos conhecemos.

Antes éramos apenas seres abstratos, nomes numa tela de computador. O meu nickname era Sonhador e o seu era Bebeta e lembro a primeira coisa que você me perguntou, "Com que sonha o Sonhador?" e eu respondi "Encontrar alguém sonhador como eu". E você: "Serei eu?" E eu: "Me diga com o que você sonha". E você: "Sonho em encontrar alguém que sonha comigo, mesmo sem me conhecer". E eu: “Me diga como você é”. E você: “Me invente, me invente” E eu: "Mas você já se inventou, ou seu nome verdadeiro é mesmo Bebeta?" E você: "Claro que não. Ou seu nome verdadeiro é Sonhador da Silva?" E depois: “Como nunca vamos nos encontrar, invente a Bebeta que você quiser”. E eu: “Por que nunca vamos nos encontrar? Vamos sim. Eu preciso conhece-la, para ter com o que sonhar”. E você: “Mas aí eu não serei mais um sonho seu, mas uma lembrança, e nem serei mais eu, pois meu sonho é alguém que sonhe comigo sem me conhecer e você me conhecerá”. Foi então que eu decidi que tinha que conhece-la.

Você resistiu. Eu insisti. Em vez de sonhar com a abstração, perdi o sono pensando em como seria, concretamente, essa Bebeta que não queria se mostrar, e não queria ver como eu era. Seria feia? Seria velha? Seria homem? Eu precisava conhecê-la. Finalmente você sugeriu que fossemos à mesma hora a um local público em que haveria muita gente, sem nada que nos identificasse um para outro, e tentássemos adivinhar quem era um e quem era o outro. E você lembra o que aconteceu. Você me reconheceu. A mulher mais bonita de todas as que estavam ali bateu no meu ombro e disse: "É você o Sonhador?", e era eu. Mal pude dizer "Eu devo estar sonhando".

Depois fomos jantar, e só o que eu conseguia pensar era "Isto não pode estar acontecendo comigo. Não pode ser verdade. Uma mulher dessas. O que eu estou fazendo com uma mulher dessas?" Você talvez não tenha notado o efeito que causava em mim, pobre de mim. Foi simpática o tempo todo. Maravilhosa o tempo todo. Me disse que seu nome era Roberta. Eu: "Sonhador da Silva", Depois: "Brincadeira..." e disse meu verdadeiro nome. Você riu. Além de tudo, tinha os dentes perfeitos. Foi quando eu decidi que era demais.

Aí o garçom perguntou se queríamos água mineral com ou sem gás.

Respondemos ao mesmo tempo. Eu: "Com". Você "Sem".

Você deve ter estranhado que o resto da nossa conversa foi sobre a minha teoria de que aquela era a divisão fundamental entre as pessoas: as que pediam água mineral com gás e os que pediam água minera sem gás. Eram as duas grandes tribos humanas, os do com e os do sem. Você riu outra vez, com os mesmos dentes, até se dar conta de que eu estava falando sério, de que aquele assunto me absorvia, me obcecava. Você tentou mudar de assunto, saber mais a meu respeito, contar mais a seu respeito, descobrir gostos comuns, talvez planejar um futuro em comum para nós dois. Mas eu voltava ao tema dos com e dos sem com ênfase crescente. Era irreconciliável aquela divisão entre os com e os sem. Podiam conviver por algum tempo numa mesma mesa ou numa mesma sociedade, mas fatalmente viria o grande cisma, e um dia a humanidade seria obrigada a escolher o seu lado definitivo, sem entendimento possível. Não estava fora de questão que a última guerra mundial fosse causa pela água mineral. E você se lembra que pedi licença para me retirar porque só pensar naquilo me causava depressão.

Você era demais para mim, entende, Bebeta? Nos conhecermos daquele jeito, nos encontrarmos daquele jeito, você ser perfeita, você não me rejeitar... Não era natural. Desculpe. Mas tenho pensado muito em você. E sonhado muito com você, Bebeta. Sonhado muito.


Domingo, 1º de agosto de 2004.



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